10/06/2021 - Autor: Flávio Trevezani



Tipos de relacionamentos: as muitas formas de amar

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Existem muitos tipos de relacionamentos diferentes do que os adotados por diversas culturas como sendo padrão, como é o caso da monogamia heterossexual. Esses relacionamentos não são práticas recentes e muito menos perversão moderna. Qualquer modelo que fuja de um casal formado exclusivamente por um homem e uma mulher é visto como anormal, promíscuo, imoral, perverso e daí por diante. Mas deixando completamente de lado qualquer princípio religioso (que não está em discussão aqui), quem disse que o ser humano precisa se relacionar apenas com um único parceiro e do sexo oposto?

Antes de qualquer outra informação, se você é uma pessoa que não acha certo outros tipos de relacionamentos que não o tradicional monogâmico, esse artigo vai ser ótimo para você entender a amplitude da capacidade humana de se relacionar e amar. Claro, desde que você esteja à vontade para transgredir algumas possíveis convicções pessoais, sem o peso de agredir suas convicções culturais e crença religiosa.

Contexto histórico dos relacionamentos

Existem diversos estudos que falam sobre o comportamento humano na hora de se relacionar. Algumas pesquisas seguem a vertente que acredita que a monogamia foi um comportamento adotado em algum momento da história e, desde então, foi associado e perpetuado culturalmente através dos costumes e da religião, principalmente. De acordo com o historiador e PHD em psicologia Christopher Ryan, autor do livro “Sex at Dawn”, por exemplo, os ancestrais dos seres humanos eram “promíscuos, hiperssexuais e desinibidos sobre o assunto”. Existem diversas abordagens e embasamentos que buscam a elucidação da monogamia como padrão social moderno. Dentre esses estudos, alguns baseiam-se e acreditam que o que levou a sociedade a instituir a monogamia foi o desenvolvimento do conceito de “propriedade privada”. Uma vez que terras e bens passavam a ser propriedade de um indivíduo, a necessidade de passar tais posses adiante por meio da hereditariedade tornou-se crucial. 

No âmbito biológico e natural, em meio a muitas espécies, os machos sentem o instinto de perpetuar seus genes, surgindo então um comportamento de busca por transmitir seus traços genéticos. Essa necessidade fez sugir diversos comportamentos, como o de predar os filhotes de um macho rival, no intuito de liberar a fêmea para um novo cio e consecutivamente coito. Dessa forma, ele possibilita-se em reproduzir seus próprios descendentes. Um comportamento consideravelmente praticado por algumas espécies como Leões, ursos, leões-marinhos, entre outros. É um comportamento que nos incomoda quando visto em documentários sobre animais e natureza, mas que é parte do processo evolutivo comportamental de algumas espécies na busca pela garantia da perpetuação de seus genes.

relacionamentos: homem cortejando mulher há algumas décadas atrás em preto e branco
Com o passar do tempo, o comportamento humano se adapta e se adequa aos novos fluxos sociais.

Vamos tentar não nos basear no princípio comportamental evolutivo do extintivo, como com os animais irracionais, mas indo para a analise dos comportamentos sociais que surgem de acordo com a evolução psicossocial humana. A paternidade humana atuou no papel de influência em relação a monogamia, fazendo com que se tornasse uma necessidade na busca de garantir que os descendentes fossem especificamente do homem em questão. 

Porém, em diversas culturas menos difundidas, o comportamento emocional e sexual pode ser bem variado deste tal “convencional”, em que é visto como natural, como de fato o é. Nas culturas islâmica e hinduísmo, a poligamia (relação onde o homem pode ter mais de uma esposa) é praticada normalmente e socialmente aceita. Claro que essa prática considera diversos fatores e regras sociais e religiosas. Já no Himalaia, existe a cultura da poliandria, em que diferente da poligamia, são as mulheres que possuem mais de um parceiro. Na cultura himalaia, a homossexualidade também era algo visto como natural até a disseminação das religiões atuais.

Tribos das ilhas de Nova Guiné, de Fiji e de Salomão há dez mil anos viam práticas homossexuais como rituais. Na Mesopotâmia, o imperador Hammurabi criou um dos conjuntos de leis mais antigos e importantes do mundo, em que previam privilégios aos homens e mulheres que se dispunham a ter relações com fiéis homens dentro dos templos de forma ritual. Ou seja, homens podiam se relacionar sexualmente com homens e mulheres de forma natural e socialmente aceita. Podemos ir além com a questão da transexualidade em diversas culturas ameríndias ou asiáticas, que veem pessoas que nascem com uma identidade de gênero, mas se identificam com a identidade oposta, como seres iluminados com dois espíritos. 

Mas o que está em questão aqui é que em alguns lugares e períodos do mundo, outros povos e civilizações se comportaram de forma diferente do que hoje é adotado como “padrão” pela sociedade globalizada. Logo, o conceito de “normal” ou “correto” nada mais é que a adoção de um modelo comportamental baseado em necessidades e condições de um período, como base para a sociedade. Mas os tempos mudaram, a humanidade evoluiu (mesmo que às vezes não pareça tanto) e esse conceito de “certo” precisa mudar urgentemente.

A variedade das relações modernas

Atualmente, outros modelos de relacionamentos que se diferem do padrão adotado pela sociedade contemporânea começam a ser expostos e naturalizados. Sim! Falamos “expostos” porque não precisa ser um grande historiador para saber que sempre houve comportamentos variados e fora do então definido como padrão social. A “famosa” e talvez falha difusão da “promiscuidade masculina”, vista e perpetuada pelo machismo como uma necessidade fisiológica, de fato pode ser sim um instinto real e ancestral. Porém, e muito porém nesse caso, esse instinto e direito também abrangem as mulheres e não apenas os homens.

relacionamentos: mulher vendo marido/namorado traindo
Uma vez que o tabu das relações abertas deixarem de ser problematizadas, pessoas com necessidade de pluralidade sexual ou afetiva poderão se relacionar entre si, tornando a traição desnecessária.

A variação dos modelos de relacionamentos tem o papel importante de acabar com a deslealdade entre casais. Assim, como existem homens e mulheres que se atraem por pessoas do mesmo sexo, existem também homens e mulheres que possuem desejos sexuais mais amplos que os monogâmicos. E aí, essa disrupção de tabus dos modelos de relacionamentos que divergem dos tidos como “corretos”, deverá contribuir para a diminuição dos relacionamentos conflituosos e baseados em traições e mentiras.

É possível que cheguemos a um momento em que não nos classificaremos sexualmente apenas com base no gênero que nos atrai, mas também com a forma de nos relacionarmos com outras pessoas, de maneira natural e sem preconceitos. Monogâmico, poligâmico, fechado, aberto individual, aberto participativo, polissexual, assexual, swingers… Há muitas formas de se relacionar, e nenhuma é errada ou condenável, desde que todos os envolvidos – aptos orgânica e psicologicamente, de posse de suas faculdades mentais e legalmente emancipadas – estejam de acordo com as condições e satisfeitos com a relação como foi acordada.

As muitas forma de relacionamentos

Existem muitas formas de se relacionar ou definir o tipo de relação. Alguns relacionamentos podem não se enquadrar em nenhum tipo conhecido. Mas a grande maioria pode ser mais bem compreendida analisando alguns modelos que vêm ganhando espaço e conhecimento popular. Nós listamos os principais tipos conhecidos atualmente e que começam a ser difundidos. Bora lá entender melhor as muitas formas de amar!

Monogamia

A nem tão velha e tradicional monogamia é a mais praticada na atual cultura ocidental e globalizada. Trata-se de um relacionamento em que se tem apenas um parceiro. Isso já significou, pouco tempo atrás, que ao escolher seu parceiro ou parceira, o processo evolutivo do relacionamento seria o casamento e, consequentemente, ficar vinculado a esse parceiro até o fim dos dias de um dos dois. Como popularmente já ouvimos: “até que a morte os separe”. Mas os tempos mudaram, e essa longevidade de relacionamento já não é mais uma condição atrelada à monogamia. Mesmo que a maioria dos monogâmicos busquem um relacionamento duradouro e vitalício, não existe mais a sentença de permanecer em um relacionamento sem sucesso simplesmente pela obrigação social ou religiosa. E isso é claramente a evolução comportamental humana seguindo seu fluxo. 

relacionamentos: foco nas mãos durante a troca de alianças em um casamento

1 + 1 = nós dois, e tá bom demais!

Poliamor

O poliamor tem começado a sair do armário dos relacionamentos e ganhado força com aqueles que se enquadram nesse tipo. Poliamor se trata de um relacionamento com mais de um parceiro. Pode ser constituído de um homem e mais mulheres, uma mulher e mais homens, mais de dois homens, mais de duas mulheres, e daí por diante. Por mais que cause estranheza aos mais tradicionais e puritanos, as regras de relacionamento podem não mudar tanto das de um casal monogâmico e de relacionamento fechado. Um trisal (três indivíduos em um relacionamento conjunto) ou quadrisal (quatro indivíduos em um relacionamento conjunto), como muitos se auto intitulam, pode ser fechado somente aos membros do conjunto. Por isso, não confunda relacionamento poliamor com relacionamento aberto ou fechado. Poliamor pode ser de polifidelidade ou não. Assim como também pode haver hierarquias, onde o casal namora um terceiro indivíduo, logo, o casal original vem em primeiro plano e o terceiro indivíduo entra como novo membro da relação. E sim, o terceiro membro pode ser uma paquera do casal, depois um namorado e finalmente, ser pedido em casamento pelo casal. 

trisal (casal triplo)

Você quer casar com a gente?

Formato V

No poliamor V, Y ou N, entre outros, considera cada ponta e interceção da letra como um indivíduo. Em outras palavras, o formato V consistiria numa relação de três membros, em que há um membro em comum e os outros dois indivíduos não se relacionam entre si. Uma mulher heterossexual e dois homens heterossexuais são um bom exemplo de um relacionamento poliamor V.

Eu, tu e elx!

Formato triangular

No relacionamento poliamor, formato triangular ou quadrado, três ou mais indivíduos se relacionam igualmente entre si. Nesse caso, todos os membros tem relações sexuais com todos. Isso ocorre mais comumente entre bissexuais e homossexuais. Exemplo: três ou quatro homens homossexuais ou um homem heterossexual e duas mulheres bissexuais.

Um é pouco, dois é bom, três é “demais”!

Relacionamentos Fechados

Os relacionamentos fechados são aqueles relacionamentos em que os membros da relação, seja ela entre dois indivíduos ou mais, não estão abertos a se relacionar com outros indivíduos. Nesse caso, o casal ou grupo poliamor, decide que são suficientes em se relacionar de forma romântica e sexualmente somente entre si. 

casal apaixonado se olhando em cores em meio a uma multidão preto e branca.

Não queremos dividir! Desculpa, somos egoístas “meixmo”!

Relacionamentos Abertos

Ao contrário dos relacionamentos fechados, os abertos possibilitam que um ou todos os membros da relação possam se relacionar com outros indivíduos. E daí a formatação disso pode ser bem variada:

relacionamentos plurais: homem com a namorada flertando outra mulher
Mono/Poli

Relacionamentos abertos Mono/poli são aqueles onde um dos membros está feliz e satisfeito em se relacionar somente com o outro, porém, o outro membro do casal sente a necessidade ou desejo de se relacionar com outros indivíduos. Nesse formato eles acordam entre si que aquele que deseja se relacionar com outros indivíduos tenha essa liberdade, enquanto o outro se mantém monogâmico ao seu parceiro numa boa. 

Vai lá e se divirta por nós dois.

Individuais

Relacionamentos abertos individuais, são aqueles onde ambos possuem a liberdade de se relacionar com outros indivíduos, mas separadamente. Não acontece a relação grupal ou participativa do casal, somente a possibilidade de cada um, individualmente, se relacionar com outros indivíduos abertamente. Nesse formato eles acordam que ambos podem se relacionar exclusivamente de forma sexual ou também emocionalmente com outros indivíduos, mas não rola ménage ou coisa similar (não com o parceiro pelo menos).

Tô pegando o ex do atual peguete do meu namorado, cê acredita?

Participativo

Já nos relacionamentos abertos e participativos, o casal se comporta como se fosse um único indivíduo, por exemplo. Nesse formato, o casal se abre a relacionar-se sexualmente com outros indivíduos, porém, sempre juntos. Um novo membro é inserido na relação sexualmente em comum acordo dos dois e com a participação simultânea dos dois. Nesse acordo, os dois podem sim ter relações com outros indivíduos, desde que ambos participem juntos.

Só se for juntos e misturados.

Misto ou Amplo

O misto é o relacionamento aberto amplo, em que os membros da relação podem se relacionar de forma conjunta com outros indivíduos, ou isoladamente sem problemas.

Amor livre, saca?

Sexuais e românticos

As relações abertas podem ser apenas sexuais ou românticas. Em alguns modelos de relacionamento aberto, cabe somente a relação com indivíduos de fora de maneira sexual, sem envolvimento amoroso.

Sexo pode, se apaixonar não!

Já existem aqueles que se abrem ao envolvimento romântico com novos indivíduos fora da relação e caso a coisa prossiga, pode evoluir para um relacionamento poliamoroso, ou não.

Eu te amo, você me ama, ele te ama, você o ama, Nós nos amamos!

Swingers

O swing é uma prática sexual comumente definida como troca de casais, porém, pode ser entendida por praticantes como um pouco mais que isso. Seria uma prática de relações sexuais com outros casais ou pessoas solteiras (singles) em que casais heterossexuais estáveis praticam na companhia e com o consentimento do parceiro. Swing é uma prática realizada por casais heterossexuais, mesmo que exista a ocorrência da bissexualidade feminina. A bissexualidade masculina não é algo tido como “comum” para a prática. Em outras palavras, seria um relacionamento aberto e participativo de cunho sexual exclusivo para casais heterossexuais amorosamente monogâmicos.

Toma lá, dá cá!

Assexuados

Entrando mais no aspecto de preferências sexuais do que no comportamento romântico, os assexuados são pessoas que se relacionam normalmente com outros de forma romântica. Com direito a dormir junto, beijinhos, abraços e carícias, mas eles não sentem necessidade ou desejo sexual. E isso é super normal, como qualquer outro comportamento emocional ou sexual saudável.

Só dormir juntinhos e tá bom demais.

A Porankatu e a pluralidade do amor

Esse assunto pesou diretamente na hora de criarmos nossos selos amigáveis. Para quem não sabe, nossos selos amigáveis são recursos visuais que desenvolvemos para o aplicativo, com o intuito de associar opções de diversão com os públicos no qual as atrações e serviços são destinados ou adequados. Entre os dez selos criados, um trata-se do selo “Juntos”. Esse selo tem a finalidade de simplificar a busca por opções de lazer e diversão mais românticas e ideias para casais. Quando esse grupo de pessoas, que buscam opções românticas, foram identificados, pensamos em batizar tal selo de “A2”, no caso, “a dois”. Foi exatamente nesse momento que as muitas formas de se relacionar vieram à tona e entendemos que existe muito mais que o modelo tradicional de casal constituído de duas pessoas em clima de romance. Compreender a pluralidade da capacidade humana ajudou a simplificar a forma como buscamos facilitar a vida de diversas pessoas, enxergando as dores de todos realmente, indo bem além apenas do comum para a maioria.

Nosso selo amigável relativo às experiências românticas quase se chamou “A2”, mas percebemos que há pluralidade nas relações, portanto o chamamos de “Juntos”.

Há muitas formas de amar

Existem diversos outros modelos de relacionamento saudáveis e ninguém precisa se rotular ou se enquadrar em nenhum modelo existente. Citar esses padrões mais comumente adotados por indivíduos que se relacionam, serve para vermos como a capacidade humana pode ser ampla, diferente, plural.

O comportamento humano tende a se transformar e/ou sofrer adaptações com o passar do tempo, como acontece desde que a espécie humana evoluiu. A compreensão mais aprofundada dos desejos e comportamentos de cada indivíduo e a aceitação de nossas diferenças sem julgamentos e condenações, poderão extinguir milhões de relações insalubres, infelizes, prejudiciais e baseadas em mentiras e traições. Compreender como somos e o que realmente queremos, nos permitirá buscar outros indivíduos que queiram algo igual ou similar. Isso ampliará o horizonte da realização emocional ao se relacionar com outros e tornará, com certeza, a vida pessoal e social melhor e mais produtiva. 

Se todos os envolvidos são capazes de decidir, estão de acordo e não afeta mais ninguém, porque seria errado?

Tratando do ato de se relacionar, cabe somente a aprovação de todos os envolvidos. Buscando compreender de uma forma mais simples, se é que isso é possível, seria: se não faz mal a ninguém e todos estão de comum acordo, não é errado. Se livre de qualquer preconceito com o diferente. 

Não é porque uma receita não se enquadra na sua visão de realização emocional que ela será errada ou condenatória. Existem muitas formas de se fazer a mesma coisa, por que amar seria diferente?

Seja qual for o modelo da sua relação a Porankatu deseja a todos um Dia dos Namorados muiiiito bacana! Ou, como diria Giovanni Improtta, personagem do saudoso José Wilker, “felomenal”!

Fontes:

Monogamia humana – History (UOL)

Homossexualidade na antiguidade – Guia do estudante (Editora Abril)

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