17/08/2021 - Autor: Flávio Trevezani



Cinema – como deve ficar o futuro da sétima arte como conhecemos?

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Se você é cinéfilo e sentiu muita falta de ir ao cinema durante a pandemia, você faz parte de um enorme grupo de apaixonados por produções cinematográficas e frequentadores assíduos. Mas, em meio a essa paixão surgiu a assustadora epidemia de Coronavírus, e logo, os locais com ambientes fechados, climatização artificial e com aglomeração de pessoas (acabei de descrever perfeitamente uma sala de cinema) tiveram que ser fechados, por questão de saúde pública. Assim, uma das indústrias que mais faturam anualmente no mundo se viu sem produção, renda e com um horizonte nebuloso cheio de incerteza do seu futuro no curto e médio prazos. 

Mas, talvez, alguém possa retrucar sobre essa incerteza dizendo: Calma, Dona Porankatu! Com a pandemia acabando, logo as coisas voltarão ao normal.

E é aí que a gente se pergunta baseado numa série de fatores e sinais: será mesmo? 

Por isso, bora analisar um pouco melhor esse assunto e tentar chegar a uma conclusão sobre se o cinema retornará com tudo ou será substituído pelos streamings.

Streaming: o novo cinema em casa

Antes das séries de TV de grande sucesso como Game of Thrones (a qual foi investido bilhões em produção e efeitos), qualidade e recursos de grandes produções só podiam ser encontrados em filmes produzidos para os cinemas. Tratando de super produções, pensar em mídia visual, sucesso e fama era sinônimo de cinema e bilheteria. Mas antes mesmo da pandemia, vimos a ascensão das produções para tv, que hoje, são feitas diretamente para os streamings de conteúdo audiovisual. 

Se por acaso você é das antigas ou não conhece o termo correto das empresas e do setor no qual a Netflix, Amazon Prime Video, Disney+, HBO Max, Hulu, Apple TV, Youtube Premium e Globo Play pertencem, esses são os streamings de tv. Os tais famosos e badalados distribuidores de conteúdo audiovisual da atualidade.

Para quem ama o cinema, não apenas pela produção e conteúdo, mas pelas suas características marcantes, ele é com certeza insubstituível. Essas características podem ser muitas, mas algumas dessas que fazem do cinema mais do que o filme são em destaque: 

  • Telona de 511 polegadas em média (12 metros de largura por 5,1 de altura), chegando a 1070 polegadas de um cinema IMax (22 metros de largura por 16 metros de altura);
  • Som Dolby Digital de 7.1 canais;
  • Pipoca com sabor típico e difícil de se reproduzir em casa;
  • O próprio ato de sair de casa;
  • O ambiente escurecido e ideal para assistir filmes;
  • A reação de todos presentes a cada cena;
  • Ser um ambiente de encontros e namoro;
  • Cadeiras reclináveis e confortáveis;
  • Efeito 3D.

Essas, entre outras características são o que tornam, para o amante do cinema, algo tão apreciado e válido do seu valor de aquisição. Algumas já puderam ser reproduzidas nos nossos lares, mas ainda assim, são referidas diretamente ao cinema.

Mas ali em cima, falamos de uma questão relevante: os valores. Para aqueles que veem o ato de ir ao cinema como um evento, sim, o ambiente do cinema é difícil de substituir e seu valor é válido. Mas para muitos outros, onde apenas consumir o conteúdo produzido é o que realmente importa, o consumo em casa passa a ser um atrativo bem mais considerável, confortável e barato.

Streaming de TV
Streamings de TV hoje são um dos principais fornecedores de conteúdo audiovisual junto a sites e plataformas digitais de entretenimento como o Youtube.

Bora considerar o pós e contra de cada um

O custo médio de um streaming varia entre R$10 e R$50 reais. Com esse valor mensal você tem acesso a muitos conteúdos, não apenas um, como nos cinemas. Considerando que você tenha escolhido um filme para assistir, temos que considerar aí o gasto de luz, seja da recarga do celular (por menor que seja), do computador ou da tv, da luz ambiente, e a mensalidade da internet consumida. Se tem pipoca, comida ou chocolate acompanhando, isso é um gasto extra a ser considerado, mas muito provavelmente, você consumirá essas coisas com valores mais em conta que nas redes de cinema.

Com streaming você não precisa sair de casa, pode assistir onde e quando quiser e vai além de filmes, tendo acesso a séries, novelas, documentários, programas, reality shows, entre outros. Mas na maioria das vezes, nada disso nos agrada como os filmes do cinema tendem a nos agradar (ou decepcionar).

No cinema, você terá de sair de casa e nesse caso, deverá considerar o deslocamento, seja de transporte público ou particular, caso não possa ir a pé. Se for transporte pessoal, considerar o combustível e se terá estacionamento gratuito ou pago onde irá assistir o filme. Chegando lá, considerará o valor da entrada (que varia de R$20 a R$40 dependendo do tipo de projeção, dia, horário e rede). Lembre-se que é para assistir a um conteúdo apenas (mas que muito provavelmente desejamos muito ver e valerá a ida) e nos horários estipulados pelo cinema. Mais uma vez, consumo de comida é a parte, mas geralmente, ele representa a parte mais relevante dos valores ao ir ao cinema. Todo esse processo para ver apenas um conteúdo, no caso filme.

Isso irá variar de acordo com sua cidade, estado e região. Daí é fazer as contas e ver o que compensa mais, considerando custos e benefícios.

Streaming 1 x Pirataria 0,9

Sabemos que o maior vilão das produções cinematográficas é a pirataria. Com os streamings, a acessibilidade, a comodidade, a praticidade e o conforto fizeram com que as pessoas viessem a preferir pagar o valor de uma ou duas sessões de cinema ao mês e ter acesso a milhares de conteúdos audiovisuais onde e quando quiserem, desde produções de outras produtoras de cinema a conteúdos criados exclusivamente para o streaming.

Sim, o conteúdo do streaming é muito mais facilmente pirateado, comparado àqueles filmes gravados com câmeras de baixa qualidade dentro do cinema, direto da tela projetada (horríveis por sinal). Com os streamings, copiar em uma qualidade boa ou idêntica a distribuída se tornou algo fácil e acessível para os pirateadores. Mas mesmo assim, baixar conteúdo da internet tem seus riscos, como o de instalar algum vírus ou até mesmo de invasão e roubo de dados. E na era em que estamos gerenciando nosso dinheiro no mesmo local em que assistimos os filmes, correr esse risco não parece valer a pena. Além da complicação que pode ser para quem não entende de informática, de como e onde baixar esses conteúdos pirateados, complica ainda mais as coisas e desanima. Isso comparado ao ato de abrir o app no celular, ou ligar a tv, clicar no conteúdo desejado e simplesmente assistir, parece que o custo do streaming acaba valendo a pena.

Pirataria x Produções de cinema
A Pirataria é um dos principais problemas do conteúdo cinematográfico.

Made for tv: do trash às séries “sensação”

Mas precisamos entender bem a história do conteúdo feito para tv, agora para streaming, para conseguirmos vislumbrar se esse pode ser o novo caminho das superproduções e o fim definitivo do cinema.

Para quem entende de cinema e da sétima arte, produções denominadas “made for TV”, nesse caso, feitas para TV, como era o caso de alguns filmes na década de 80 e 90, eram associadas automaticamente a: produções de baixo investimento, atores poucos conhecidos ou em decadência e muito provavelmente baixa qualidade e nenhum efeito. Isso não era uma regra, mas era uma visão bem formada para o setor. Muitos dos famosos filmes trash (filmes “lixo”, no caso, com produções baratas, mas que acabaram caindo na graça do público) acabam sendo sucesso, só que muitas vezes, anos ou décadas depois de suas produções (o que pode até alavancar a carreira do diretor, produtor ou atores da produção, mas com certeza, não gera retorno financeiro viável). 

A questão é que essa realidade mudou quando as grandes indústrias de cinema passaram a investir em canais de TV, criando seus próprios canais como MGM, Sony, Fox e a própria Disney. Logo, com o avanço e evolução da sétima arte, os canais começaram a se transformar em streamings. 

Hoje, vemos mega produções sendo feitas para os streamings que chegam a disputar a premiação do Oscar e a ganhar. Isso poderia ser até compreensível para obras de drama, onde o enredo e a atuação valem muito mais que a produção e os efeitos. Mas produções de streaming têm ganhado em categorias antes jamais sonhadas para os “made for TV”, como no caso de efeitos especiais, figurino, entre outros.

Ninguém pode duvidar que hoje, o streaming é o novo modelo de distribuição de conteúdo audiovisual de alta qualidade. Mas isso prova que ele vai substituir o cinema?

Cinema e Streaming: qual é o futuro mais provável?

Somente se fôssemos videntes, poderíamos afirmar com certeza se o cinema irá ocupar novamente sua posição de entretenimento audiovisual igual a de antes da pandemia ou se a tendência do mercado irá matar as redes de cinema mundo afora.

A primeira coisa a se compreender é que as produtoras continuarão existindo e seja para conteúdos de streaming ou para telonas, elas dificilmente irão morrer por agora.

Mas para aqueles que distribuem as produções, os cinemas físicos de fato, esses são outro grupo e sim, eles possuem seu futuro incerto. Mas quem tem certeza de futuro, hoje em dia?

Gravuras em paredes viraram pergaminhos, que viraram livros e canções, que viraram teatro e música, que viraram cinema, tv e rádio, que viraram vídeo-cassetes e dispositivos de música como toca discos e toca fitas, que por sua vez evoluíram para CD e DVD, para MP3 e Blue-ray, que viraram conteúdos digitais na internet e streamings. Nada permanece da mesma forma, e formas melhores e mais práticas, ou de melhor qualidade, vêm e ramificam o setor ou substituem algum recurso que por tempos tem dominado o mercado.

O fato de que o acesso à tecnologia está ficando maior, e logo, ter seu próprio cinema particular não deverá ser algo tão inacessível, faz com que os recursos atuais precisem evoluir e se tornarem inacessíveis à grande massa. E seja pelos streamings ou pela tecnologia que avança, o cinema como conhecemos mudará, assim como a tv está mudando. Afinal, o consumo de conteúdo da tv aberta diminui a cada dia, enquanto os conteúdos digitais só aumentam.

Streaming x cinema
Cinema x Streaming de TV

Tem mercado para todo mundo, basta acordar tudo!

Existe sim espaço para ambos (cinema e streaming) e outros mais como Youtube, Tik Tok, redes sociais e daí por diante. Mas o mercado terá de se adaptar. Um exemplo fantástico disso (não muito legal, mas bem interessante para se analisar as mudanças) é o caso da atriz Scarlett Johansson que processou a Disney por oferecer o filme Viúva Negra no seu streaming ao mesmo tempo que lançava nos cinemas.

Pelo lado da Disney, ela visou as condições atuais, da pandemia e de uma considerável fatia do público que ainda evita ir para ambientes como cinema. Logo, buscar faturar com quem quer ver o filme, mas não pretende ir ao cinema, ofertando assim ele a um preço extra da mensalidade do streaming, foi uma excelente alternativa.

A questão é que o contrato da atriz inclui participação nos lucros da bilheteria (apresentação do filme nos cinemas) como parte de seu cachê. Dessa forma, aqueles que pagaram (aqui no Brasil, por exemplo) R$69,90 para assistir ao filme em casa, não contribuíram para o cachê de Johansson.

Mas e aí, cinema vai ou não acabar?

O consumo de conteúdo audiovisual tem mudado consideravelmente. Hoje, conteúdos feitos com o celular de desconhecidos (a princípio), sem nenhum investimento financeiro ou super produção, têm ganhado cada vez mais público. Eles não substituem as super produções, mas o hábito de consumo tende a mudar com o tempo e logo, o gosto da população mundial está cada vez mais padronizado devido a globalização, assim, as mudanças ocorrem massivamente e bem mais rapidamente.

Falando do cinema, muito provavelmente ele encontrará novos meios e tecnologias que farão dele único e acessível somente em sistema compartilhado, como é hoje. Seja holografia, inserção de novos sistemas de sentidos, como olfato, tato, como já ocorre em alguns cinemas chamados de 4D, 5D ou até 7D, com cadeiras que tremem, borrifadas de água em cenas de chuva, com aquecedores em cenas de vulcões, com ventania em cenas aéreas ou de furacões. Então, o que sabemos é que o cinema como conhecemos deve sim definhar de alguma forma, como a TV, o rádio e os próprios streamings em algum momento. Mas muito provavelmente eles deixarão de existir como são para dar espaço a outros formatos de entretenimento.

Olhando lá na frente: qual deve ser o futuro do entretenimento visual?

Atentem-se aos video games. Essa indústria é a que mais arrecada anualmente no setor de entretenimento. Os jogos estão cada vez mais realistas e neles, além de visualizar a história, você conduz e participa dela. Ela é altamente interativa e as novas gerações têm estado cada vez mais afeiçoados, e praticantes desse modelo de entretenimento. Logo a tendência de consumo de enredos de entretenimento daqui a algumas décadas poderá ser muito mais parecida com os jogos eletrônicos que com as obras audiovisuais.

Vídeo Games, futuro do entretenimento digital
Jogos de vídeo game estão cada vez mais realistas e com enredos cinematográficos, com a vantagem de que você está inserido nele.

Um grande sinal disso são os filmes e séries feitos para os streamings com recursos interativos, onde você escolhe o que o personagem deverá fazer e isso te conduz para uma continuação diferente e alternativa. As séries têm ganhado mais destaque e os filmes têm ganhado enredos que compõem sequências pré-planejadas desde o princípio. Diferente daqueles que ganham sequência baseado no fato da primeira produção ter feito sucesso. 

Seja qual for o futuro da cinematografia, sabemos somente que sempre haverão novas produções de entretenimento, porque o ser humano necessita dessa fuga e imersão em mundos alternativos e fictícios. E é quase impossível viver sem se divertir e distrair. O entretenimento audiovisual é, com certeza, uma das formas mais populares, democráticas, prazerosas e fantásticas de se divertir hoje. Por isso, viva a sétima arte!

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